segunda-feira, 12 de março de 2012

Só o Amor nos torna humildes*

Quantas vezes nos orgulhamos de nós? Do que vivemos num instante preciso, do que fomos em vários momentos e do que queremos ser, alguma vez, num lugar qualquer, desgarrado no futuro? Dos projetos que temos em mãos e das histórias que nos guardam em si? E nos orgulhamos de ter partilhado, para além do que imaginámos, o melhor do que vivemos? Quantas vezes nos orgulhamos por uma descoberta, pelo resgate de uma dúvida ou pelo sabor de magia e de mistério com que alguém nos corrigiu? E quantas mais nos orgulhamos quando alguém, no meio de um palco, procura o nosso olhar e, depois de um aceno, atua como se só o nosso coração fosse o seu público? Quantas vezes nos orgulhamos por estarmos onde, sem que ninguém nos dissesse, sabíamos ser ali, e só ali, o nosso lugar? Quantas vezes nos orgulhamos da coragem de conquistar, seja o que for, com o coração a gaguejar? E nos orgulhamos dos pequenos gestos com que se avantajam as convicções? Ou da forma como nunca nos cansa dizer «amo-te!» ás pessoas que o sabem, desde sempre, mais ou menos de cor? E nos orgulhamos por não sermos omissos com os pequenos desgostos, sobretudo, com cada «não gostei» com que ferimos de desalento uma ilusão? E nos orgulhamos com o jeito com que dizemos «não sei», «ajuda-me» ou «que parvo fui»? E com as formas como aceitamos cada perda e nos reconstruímos nela? Quantas vezes nos orgulhamos por nos reconhecermos nas palavras que dissemos e, mais do que nelas, no seu tom? E na forma como tudo o que em nós, podendo baralhar-se, se casa numa mesma integridade? E nos orgulhamos com o desassombro com que dizemos «o que queres para a tua vida?» e, balançando, escrutinamos num desejo quem nos ajuda a desenhá-la num caminho? Quantas vezes nos orgulhamos por cada rebelião que merece quem nos grafita o coração? E nos orgulhamos por quem nos ama? Pelo modo como nos protege e adivinha? E orgulhamos pelo jeito - só seu - com que acarinha (com sensibilidade e com beleza, com inteligência, com bom senso e com bondade)? Quantas vezes nos orgulhamos pelos nossos pais e pelos nossos filhos? E com as pessoas com quem dividimos os passado e o futuro? Quantas vezes, depois de os imaginarmos e depois de os conhecermos, reparamos que se tornaram bonitas, mesmo quando as olhamos de supetão e de fugida? E quantas vezes, ao ancorarmos nelas, nos agitam com uma boa surpresa? Quantas vezes aceitamos que admirá-las é comungar o seu orgulho, tornando seu o nosso? E nos orgulhamos por não dizermos «eu gostava» nem «se eu quisesse», mas por sermos, simplesmente, capazes de indagar «quem não sou eu?». Quantas vezes nos orgulhamos por descobrir que á liberdade nunca se chega quando se suspira, todos os dias, por fugir, mas quando se foge de dentro de um sonho para dentro de alguém? Quantas vezes somos capazes de afirmar: «Perdi, não só, muitas pessoas. Perdi, sobretudo, inúmeras oportunidades de não as perder»? E quantas vezes nos orgulhamos ao reconhecer que não é por se esconjurar o escuro que se enxerga a luz?

São poucas, muito poucas para as que deviam ser, as vezes em que dizemos: «estou orgulhoso por ti!» ou «que orgulho sinto por seres como és!». E aquelas em que confiamos: «sinto orgulho por te orgulhares de mim». E todas as outras em que, ao sentirmos orgulho, o abrigamos em alguém. Mas são menos, ainda, as vezes em que nos orgulhamos de nós. Porquê? - pergunto eu - já que o orgulho não é vaidade... Que diferença haverá entre o orgulho de nós e a vaidade? A vaidade esgota-se no desejo; o orgulho é uma comunhão entre aquilo que desejámos para nós e o que concretizámos com os outros. A vaidade pisa; o orgulho solta. A vaidade é um fora sem dentro; o orgulho é dentro e fora num só gesto. Que relação haverá entre orgulho e depressão? Depressão é vaidade falhada. É uma vergonha obstinada e persistente. E entre sonho e orgulho? O orgulho é um voo; o sonho um imaginar que se voa, que desfalece ao pé do seu voar. Seja como for, se o orgulho nos faz amáveis, só a esperança nos torna amantes. Mas só o amor nos torna humildes.

* Nunca se Perde uma Paixão

- Eduardo Sá -

1 comentário:

Ecos da Alma disse...

Já andava para comprar, agora é que vou mesmo comprar :)